sábado, 15 de novembro de 2014

NOVIDADES

Costumo pensar que a cada nova etapa do tratamento, e à medida em que Miguel cresce e passa a reconhecer a dinâmica em que vivemos em função de seus pés, nossa rotina muda.

Eu imaginava que a mudança da fase da órtese de 16h para 12h nos traria algumas dificuldades, em virtude de Miguel compreender que passaria o dia todo sem a órtese e não aceitaria colocá-la à noite. Mas não tivemos problema e ele aceitou bem essa mudança.

Mas agora, já quase 4 meses nessa fase é que as "dificuldades" surgiram. Ele ainda aceita colocar a botinha à noite. Tem vezes em que resiste um pouquinho, mas aceita, e uma vez com a bota, não tenta tirá-la, ou reclama por estar usando. Os problemas têm surgido durante a madrugada.

Por mais que tenhamos uma noite tranquila, por mais que ele durma bem e solicite pouco o mamá, ainda assim acordo inúmeras vezes durante a madrugada. Não faço de propósito, acho que isso é coisa de mãe, acordar, ver se está coberto, ver se está bem... E como uma boa mãe de PTC, acrescento ver se a botinha está bem encaixada e se as pernas estão confortáveis. Não imagino como seria meu dia se precisasse levantar cedo a cada manhã e sair pra trabalhar após as noites que temos... E na semana passada, por dois dias, fui acordada por ele, que estava um pouco chorosinho.

Em uma noite, a bota estava com as fivelas apertadas demais. Eu havia colocado um par de meias mais grossas, e apertados as fivelas como de costume. O resultado? Estava apertado demais e estava machucando os pés. Nessa situação, acabei por tirar a bota de vez, e deixá-lo dormir o restante da noite sem ela. Entenda, não estou incentivando a ninguém que faça isso. Estou apenas relatando uma situação que vivenciamos e qual foi a minha reação. Foi uma noite atípica. Não é correto que a criança fique sem a órtese durante o período proposto,

Em outra noite, na mesma semana, a órtese pode ter ficado frouxa demais, e somado ao fato de que
ele se mexeu muito, no alto da madrugada, um pé estava fora da bota; livre, leve e solto! Isso aconteceu outra vez durante essa semana. E essas situações me tiram do sério, me deixam muito preocupada.

Como se não bastassem essas situações, passei a perceber que os dedinhos do pé direito, o Pelado, estavam ficando na posição virada pra dentro, isso é, não estavam "retinhos" pra frente, mas ficando de ladinho. Pronto! Esse foi o fim da picada! Me enchi de temores, senti o fantasma dos gessos me assombrando... Decidi que precisávamos voltar ao ortopedista!

E ontem nós voltamos. Já no caminho tentei me preparar para qualquer notícia ruim. Fui com os olhos cheios d'água.

Ao sermos chamados, Miguel foi andando em direção ao consultório. Que vitória! Na primeira vez que fomos lá com ele, há 1 ano atrás, seus pés estavam completamente tortos, precisando iniciar o tratamento. Ontem, ele chegou andando! Mas ao ver o Dr. Paulo sentado em sua mesa, ele parou a marcha, olhou para o pai, e resistiu para entrar. Eu já estava dentro do consultório e insistimos que continuasse andando, mas ele começou a chorar, e só parou quando o pai o pegou no colo e entrou com ele (Como é importante essa confiança que a criança tem nos pais, pois mesmo com medo de entrar na sala, ele aceitou quando se sentiu seguro no colo do pai).

O Dr. ficou muito feliz em nos ver e em ver Miguel andando! Fomos recebidos com um grande sorriso, e Miguel ganhou até cócegas nos pés! Ele então o observou andando pra lá e pra cá, examinou Pelado e Malhado, os calcanhares, os dedinhos... E eu, com o coração na mão, cheia de medo. E o veredito foi dado. Os pés estavam estavam corrigidos até demais! Ufa! Que alívio! Me deu vontade de chorar, mas agora, de felicidade!

Então, após todo o exame, fomos conversar. Contei-lhe sobre minhas dúvidas, e ele me explicou tudo, uma por uma.
A primeira questão foi sobre os dedinhos, que pareciam querer "entortar". Ele disse que a tendência dos dedos é essa mesmo, por isso a órtese é feita como é, com a parte dos dedos mais reforçadas, para firmá-los.

Mostrei-lhe como estava a órtese, se ainda estava boa, porque apesar de ainda estar grande, parece amassada na parte do calcanhar. Ele me explicou que isso se dá pela necessidade dos pés de voltarem à posição normal deles, tortos!

Perguntei-lhe sobre o uso da Calha e da Órtese que possui mobilidade, e ele me explicou didaticamente que ambas não são indicadas para o tratamento de PTC pelo método Ponseti. Que por Ponseti, a órtese com uma barra de ferro fixa, a Dennis Brown é a indicada.

Perguntei-lhe sobre a necessidade de fisioterapia. Ele explicou que a fisioterapia de Miguel será andar descalço dentro de casa (já faz isso com maestria!) e andar na areia da praia.

Com tudo isso, chego à conclusão de que parece que com o tempo acabamos por minimizar a complexidade dessa má formação congênita e seu tratamento. Talvez por ouvirmos tantas vezes de parentes e amigos que os pés estão perfeitos, acabamos por acreditar. Eles estão perfeitos comparados com antes, e como modo de falar, mas na prática não estão. Os pés do Miguel não estão perfeitos, porque, como nos disse o Dr. Paulo, Miguel está em tratamento - e essas palavras foram particularmente duras pra mim. Talvez pelo fato de eu saber que se dermos bobeira, se não usarmos a órtese corretamente, corremos o risco de voltar à estaca zero", de ter que voltar à cirurgia, aos gessos... Isso chama-se RECIDIVA ( Reaparecimento de uma doença que, após um intervalo de tempo, ocasiona a reincidência de seus efeitos). Sim! É possível que os pés entortem novamente! E esse é o temor de todas as famílias que cuidam de um PTC.

E assim continuamos nossa caminhada, seguindo os conselhos do médico, usando a órtese corretamente, rogando a Deus que continue a nos dar forças e dando muito carinho e beijinho nos Pepés Pelado e Malhado!

Não tiramos fotos no consultório dessa vez, mas vou postar fotos das duas amiguinhas que também usando órtese aqui em casa!

Essa boenca deve ter uns 15 anos, e só agora percebemos que ela tinha Pé Torto! rsrs