terça-feira, 25 de novembro de 2014

FELIZ

Acho lindo o sorriso do meu filho! É um sorriso largo, do tipo que me faz feliz só em vê-lo com aqueles dentões à mostra! Um sorriso contagiante, que acaba por me roubar um sorriso também!
Veja, esse não é o sorriso mais lindo do mundo?

E um dia desses esse sorrisão me emocionou - não foi a primeira vez, e com certeza não será a última!

Estávamos eu e ele na sala. Ele brincando e eu assistindo à TV. E então, percebo que seus olhinhos procuravam os meus, e seu sorrisão estava estampado no rosto. Ao observar melhor, percebo que ele está suspendendo o pé direito, fora da órtese, para me mostrar! E esse era o motivo de sua alegria! Ele conseguiu tirar a botinha sozinho! E sem desamarrar! e sem soltar a fivela! Incrível! Ele conseguiu tirar o pezinho da forma mais difícil! E como não retribuir ao seu sorriso com o meu? E como não ficar feliz com sua felicidade? Como não comemorar junto com ele seu grande feito?

Pois eu sorri de volta e fiz a maior festa, parabenizando-o por ter conseguido! O beijei e abracei, disse o quanto era inteligente e especial por ter conseguido tirar a botinha só movimentando os pés! Fiz carinho e massagem no pé. E então, tirei a botinha do outro pé e deixei que curtisse mais um pouquinho sua liberdade. Após algum tempo, coloquei a órtese de novo, conversando com ele sobre a necessidade que ele tem de usá-la. 

E já havia bastante tempo que não tínhamos problemas para que ele dormisse bem à noite. Em geral, ele mama algumas vezes, mas dorme tranquilamente. E então, a partir dessa situação, começamos a ter noites difíceis.

Durante a madrugada o ouvi resmungando, e notei que ele estava com um pé fora da bota. Mais uma vez ele o tirou sem desamarrar o cadarço ou desatar a fivela, apenas movimentando os pés. 

E lá se foram mais umas cinco noites dessa forma. Noites sem dormir direito porque ele chorava, se mexia demais, e tentava tirar a bota, e sempre conseguia. Por algumas vezes, ele amanheceu sem a bota em um dos pés. Em uma noite o peguei no flagra! Dormindo, ele suspendeu os pés, segurou só a botinha do pé direito e o puxou, para tirar. Achei interessante porque ele realmente dormia enquanto fazia isso.

E a partir daí, passei os dias imaginando como fazer para evitar que ele tirasse novamente. Porque é extremamente importante que o tempo de uso da órtese seja obedecido! É disso que o sucesso do tratamento depende! O médico já fez a parte dele até a cirurgia, e a partir do momento em que começou o uso da órtese, é nosso dever cuidar para que seja feito da forma certa!

Se ele desfizesse o cadarço ou desatasse a fivela, eu tinha inúmeras ideias para solucionar o problema. Entre elas, poderia passar fita crepe em volta do cadarço, fazendo com que ficasse escondido e com o nó preso, por exemplo.

E então, após ouvir algumas sugestões, ontem à noite resolvi enfaixar o pé direito da órtese, já que é o que ele se esforça para tirar. E assim fiz, com uma atadura que já tinha aqui em casa. Pronto, tudo certo. A órtese já estava colocada desde cedo, de forma que não estava machucando, já que não reclamou de dor em momento algum (vale frisar!), coloquei a atadura por cima da botinha e fomos dormir. 
A atadura foi colocada firmando bem a parte do calcanhar sobre o bico da bota, fazendo uma força de trás para frente, para que ele não tivesse  mobilidade para tirar o pé da bota.



Uma hora depois, já dormindo, ele começou a reclamar e se mexer. Comecei então a conversar com ele, a cantar, a fazer massagem nas pernas... Ele se acalmava, mas apenas momentaneamente, e logo depois já se esforçava para tirar o pé direito novamente. 

Em um dado momento, ele deu um grito e começou a chorar forte. Alguém despreparado que ouvisse, pensaria que estava machucando os pés na órtese muito apertada! Mas não! Não estava! Como eu disse, a botinha tinha sido colocada cedo e ele não havia reclamado de dor em momento algum! E é aí que, como cuidadores desses pés de anjo, temos que estar atentos aos reais motivos do choro! E ele chorou porque queria que a órtese fosse tirada! Nesse momento minha mãe veio se deitar ao lado dele, fazendo carinho, para que se acalmasse.

Vou abrir um espaço aqui para afirmar que a criança, nessa situação, não usa o choro para manipular os pais! O choro é legítimo, não para representar dor, mas para representar um incômodo que a criança não sabe expressar de outra forma e nem sabe usar outro jeito para dizer o que quer que seja feito, por isso chora!

E então, devemos ter ficado nessa luta por mais ou menos uma hora, até que me lembrei que em uma noite conturbada dessas ele relaxou e dormiu quando coloquei para tocar bem baixinho perto dele a música Happy, de Pharrel Williams. Ele ama essa música! E assim fiz essa noite também. E acabou que ele deu uma despertadinha e começou a procurar o celular para assistir ao clip, porque ele ama assistir as pessoas dançando nos inúmeros clips que essa música tem! Assistiu umas duas vezes, e na terceira já estava dormindo. E passado um tempo, não sei precisar quantas horas, ele começou a se mexer e tentar tirar novamente o pé, porém agora, o esquerdo, já que com o direito não havia dado certo. E como o esquerdo não estava enfaixado, ele estava conseguindo alcançar seu objetivo.

Dessa vez peguei o pedaço que sobrou da atadura e enfaixei também o pé esquerdo. Me certifiquei de que os dois calcanhares estavam encostando na sola dos sapatinhos (isso é extremamente importante!), e o fiz dormir deitado sobre meu braço. E está dormindo até agora (8:30 h), graças a Deus, com os dois pés na órtese!

E de toda essa situação tirei algumas conclusões para minha vida. A primeira é que há situações que precisamos passar, não importando nossa fé! É como dizem, o sol nasce para todos, e da mesma forma, problemas e bênçãos são destinados a todos. 

Há quem se ofenda em pensar que foi Deus quem permitiu que o filho nascesse com PTC. Eu não. Eu tenho certeza de que Ele permitiu sim, e que da mesma forma Ele nos ajudou e ajuda com o tratamento, desde a encontrar profissionais capacitados, até a passarmos por noites como as que temos passado. 

A segunda lição é que a amamentação e a cama compartilhada têm sido grandes pontos de apoio para o Miguel em seu tratamento. O fato de dormir em sua caminha encostada na nossa nos permite ter contato com ele durante toda a noite, além de facilitar a amamentação, e permitir que ele se sinta seguro, sabendo que estamos ali, a poucas engatinhadas. Ele sabe que estamos sempre ao seu lado. Por vezes ele dormiu no meu braço, mamando, e com a mãozinha fazendo carinho no rosto do pai, ou recebendo o carinho do pai. Vê? Ele se sente amado, cuidado e protegido por nós dois.

Já com a amamentação, percebo que é estendida a sensação de conforto. O leite materno não é apenas alimento, é amor, cuidado, proteção, uma troca de carinho pele com pele, uma conexão que temos que é só nossa, assim como éramos conectados quando ele estava no útero. É claro que já pensei muito sobre o desmame. Não é nada fácil acordar várias vezes durante a noite para que ele mame e amamentá-lo durante o dia em livre demanda, sendo que já estamos nisso há quase um ano e três meses e se alimenta bem. É cansativo, mas escolhi fazer a amamentação continuada, até dois anos ou mais (após os seis primeiros meses em exclusivo) e ponto. Não importa o que digam, o que aconselhem, é uma decisão que cabe exclusivamente a mim, e tendo saúde, continuarei, por perceber que essa é uma forma de tornar todas as situações que meu filho passa com o tratamento de seus pezinhos mais fáceis, de fazê-lo se sentir tranquilo e seguro, compreendendo que estou ali, colada a ele, ligada a ele. Foi isso que nos auxiliou desde a época em que colocava os gessos. A cada noite que voltávamos da clínica, era em meu seio que ele encontrava conforto. E assim continua sendo.

E por fim, a terceira lição é que conviver com essa dupla - Pelado e Malhado - tem nos motivado, empolgado e empoderado. Tem nos feito felizes, tem aguçado nossa criatividade, nossa fé em Deus e nosso amor, além de nos permitir viver aventuras nunca imaginadas!


Aqui você assiste ao clip da música Happy! 


"Me pôr pra baixo
Nada pode me pôr pra baixo
Meu nível é muito alto pra que me ponham pra baixo
Porque estou feliz"


O amor por nosso pequeno guerreiro nos faz felizes!