quarta-feira, 27 de agosto de 2014

OUTROS OLHARES

Há alguns dias pedi às pessoas que estiveram conosco diretamente no tratamento, seja em consultas, seja em trocas de gesso, para que descrevessem sua visão sobre tudo, para que assim fossem passadas suas impressões aqui no Blog. Já recebi duas:

  • Tia Leila. Ela esteve conosco nas primeiras trocas de gesso e na Tenotomia.


"Me lembro muito bem quando recebi um telefonema de manhã cedo de Ione: "Vou ser avó". Pensei "como? Mic não pode engravidar", mas ela foi rápida... "É Michelle, Leila, ela está grávida!" Nossa, como chorei aquele dia (hoje também estou chorando).

Não lembro o dia do mês, só que era uma segunda-feira do mês de setembro. Fomos levar Miguel para o primeiro gesso. Eu, Ione, Michelle e Ludmilla. Nossa, como foi dolorido, mais para nós. Ele chorou muito sim. Acho que porque mexeram em seus pezinhos, que pra ele, eram normais. O Dr. Paulo (aquela tinha sido a primeira vez que eu o via), é uma pessoa iluminada por Deus.
Não sei quem chorava mais, Miguel ou a vó Ione. Meu coração se apertou e saí de lá. Não aguentava ver aquele sofrimento. Não só o de Miguel, mas o da minha irmã e da minha sobrinha. Ainda hoje me emociono quando lembro. 

Hoje, quase um ano depois, só tenho que agradecer a Deus e dizer que Miguel não poderia ter outra mãe. Michelle, guerreira, amorosa e paciente com seu primogênito. Quando olho pra Miguel hoje, fico lembrando que quando o vi pela primeira vez,  eu nem imaginava como seriam aqueles pés tortos. Achei lindos e preocupantes...
Hoje damos Glória a Deus por Miguel. Lindo, inteligente e... Guerreiro. Amo vocês!!!"


  • Ione, minha mãe. Vó One para os netinhos.
"Deus é muito bom...

Olhando pra trás, consigo lembrar de dias de sofrimento e dor, recheados com felicidade. 
Era o Nascimento de Miguel e o início do tratamento do PTC.
O primeiro gesso do Miguel, acredito ter doído mais em Michelle, Gilberto e em nós, que o amamos, do que nele mesmo e a cada semana, a cada troca, era uma dor que sem igual. Como queria estar passando por tudo aquilo em seu lugar... Quando chegávamos na Clínica para a retirada do gesso, eu não sabia quem chorava mais, se era Miguel ou eu.  Até que chegou o dia da Tenotomia.  Meu Deus, muito triste ver Miguel sendo levado pra sala de cirurgia e nós ali, estáticos, sem saber o que fazer, olhando pro relógio para que o tempo voasse e Miguel voltasse pros nossos braços... Foi uma eternidade aquela espera.  Quando ele retornou, mais uma surpresa, o Dr. Paulo operou também a língua presa. Ah... a expressão de Michelle quando soube, era de surpresa e apreensão... Foram dias de tensão, de questionamentos sem respostas, mas sempre com a esperança de que tudo aquilo seria uma fase, passaria logo e em breve teríamos nosso menino com seus pés na posição correta.
E hoje, um ano depois, podemos ver o quanto Deus é maravilhoso!!!! Miguel está quase andando, seus pés, na posição correta e agora usa a órtese só para dormir...
Miguel é um guerreiro vencedor, desejo a ele um presente de muitas outras conquistas e um futuro brilhante.
Não vejo a hora de vê-lo, como Guigui gritando no portão me chamando: “Vó One!!!”
Sou muito feliz por Deus ter me concedido a benção de ser avó."

Com vó One!



AMOR, MEU GRANDE AMOR


Amor, meu grande amor
Não chegue na hora marcada
Assim como as canções
Como as paixões
E as palavras
Me veja nos seus olhos
Na minha cara lavada
Me venha sem saber
Se sou fogo
Ou se sou água
Amor, meu grande amor
Me chegue assim
Bem de repente
Sem nome ou sobrenome
Sem sentir
O que não sente
Que tudo o que ofereço
É meu calor, meu endereço
A vida do teu filho
Desde o fim até o começo
Amor, meu grande amor
Só dure o tempo que mereça
E quando me quiser
Que seja de qualquer maneira
Enquanto me tiver
Que eu seja
O último e o primeiro
E quando eu te encontrar
Meu grande amor
Me reconheça
Que tudo que ofereço
É meu calor, meu endereço
A vida do teu filho
Desde o fim até o começo
Amor, meu grande amor
Que eu seja
O último e o primeiro
E quando eu te encontrar
Meu grande amor
Por favor, me reconheça
Pois tudo que ofereço
É meu calor, meu endereço
A vida do teu filho
Desde o fim até o começo
Que tudo que ofereço
É meu calor, meu endereço
A vida do teu filho 
Desde o fim até o começo



Hoje nosso Miguel completa seu primeiro ano de vida... Agora ele está lá, dormindo, tão lindo, com sua botinha nos pés... Olho pra ele e vejo um guerreiro, que já desde cedo aprendeu a ser resiliente... e forte! Superou obstáculos de que nem faz ideia... Já nem deve se lembrar dos apertos que passou em seus primeiros meses de vida... 
Como pais, ficamos a pensar em seus futuro, no homem que se tornará, nas escolhas que fará... Mas também conseguimos enxergar a criança que ele é, tão doce, tão carinhoso, tão forte, tão lindo... E hoje, fazendo aniversário! 
Ao sair para o trabalho, o pai me deu um beijo e com um sorriso, disse "feliz aniversário". Deu um beijo em seu bebê, de um sorriso, e por alguns segundos ficou admirando sua obra, seu grande feito, o homem de sua vida, seu filho! E temos a certeza de que não há no mundo felicidade maior do que a sentimos hoje... E foi assim que ele chegou, "sem hora marcada, como as canções, como as paixões, como as palavras".
27/08/2014




sexta-feira, 8 de agosto de 2014

SAUDADE...

Agora são 7:45h da manhã. Gilberto já saiu pra trabalhar. Hoje acordei cedo e perdi o sono. Estou sentada à mesa da cozinha com o computador, porque daqui fica mais fácil olhar Miguel dormindo, enquanto navego. E observando o ambiente em que estou, me veio uma profunda saudade... Pela janela posso observar a paisagem, e reparar que o sol está lindo, e ele passa pelos vidros transparentes, e  vem por sobre a mesa. Daí veio minha saudade. 

Saudade de dias que aconteceram há quase um ano atrás, quando em manhãs como essa, mais ou menos nesse horário, meu filho recém nascido tomada seus banhos de sol. O colocávamos no bebê conforto sobre a mesa, para aproveitar esse solzinho. Ou então, sobre um travesseiro. Ele começava o banho de sol de roupinha, que ia sendo tirada aos poucos, para não sentir frio. Ele bem que gostava, e acabava por dormir novamente.

Me lembro de certo dia estar sentada em uma cadeira, de frente para essa mesma janela, com ele no colo, pegando sol, e cheia de preocupações em mente. Me preocupava com seus pés, que pra mim eram tão lindos, mas iriam nos exigir tanto trabalho. Sentia medo do que viria, de como seria, e do resultado. Tinha medo de que aquela paz que sentia acabasse, e que meu filho não fosse feliz. Medo de não estarmos preparados, medo de que não fosse fácil... Eu tinha tantos medos, mas ele, visivelmente não tinha medo nenhum!

Então agora estou aqui, como já disse, quase um ano depois, me recordando e me emocionando com as obras de Deus em nossas vidas... E meu filho esse mês completará um ano de nascido. Um ano! O tempo passou rápido demais! Com ele, meus medos (incluo aqui os do pai também) também passaram. O tratamento foi um sucesso. E os pés tortos, já não o são mais! 

Agradeço a Deus pelas lutas que tivemos, porque por meio delas a família toda pôde crescer e louvo a Ele pelos momentos em que não nos permitiu estar sozinhos. 

E agora, ao final, me veio à mente um trechinho de uma música de Roberto Carlos: "Se chorei ou se sorri, o importante é que emoções eu vivi."

"Aos olhos do Pai, você é uma obra prima, que Ele planejou/ Com suas próprias mãos criou..."


No bebê conforto





segunda-feira, 4 de agosto de 2014

MINHA PRIMEIRA LIÇÃO

Uma das maiores felicidades vividas por pais de bebê é perceber seu desenvolvimento, a evolução de seus movimentos... Vê-lo ficando de bruços, se arrastando de barriga, e logo engatinhando...  E junto a essa evolução, vêm novos perigos...

Era uma noite de sábado e fomos dormir na casa da minha mãe, já que Gilberto estava viajando a trabalho. Lá, coloquei Miguel para dormir na cama dela. Como precaução, fiz uma barricada de travesseiros à sua volta (quem nunca?). Ele estava sendo devidamente mantido longe do chão... Será?

Enquanto ele dormia, sentamos na sala. O cômodo é longe do quarto, e de tempo em tempo uma de nós ia lá para vê-lo, e ele estava sempre dormindo. Mas antes de uma das rondas, ouvimos um gritinho seguido de um choro. Fui correndo ver o que tinha acontecido. Chegando lá, Miguel estava no chão, de bruços. Como já não chorava, achei que estivesse tudo bem.

Mas quando o peguei no colo, percebi que ele tinha "engolido o fôlego".
Fui ao banheiro, na intenção de molhar a mão e passar no rosto dele, como minha sogra me ensinou, para casos como esse. Ao molhar a mão e voltar a olhar para ele, percebi que saía sangue de sua boca, e agora ele já estava chorando novamente.

Eu entrei em desespero, e não conseguia parar de pensar e de falar, aos prantos, "Por que isso aconteceu? Eu cuido tão bem dele... Eu deveria tê-lo protegido da queda..." Nesse momento, minha mãe tentava me tranquilizar, dizendo "isso acontece com criança mesmo, é assim mesmo, não foi culpa sua... Você não teve culpa..."

Miguel já tem dentes desde os 5 meses. Nesse dia, ele já estava com 8 dentinhos, então entrei em desespero, pensando que poderia ter arrancado algum dente durante a queda, e isso teria provocado o sangramento. Com as mãos trêmulas, cheia de medo, me sentindo impotente, verifiquei os dentes, e estavam bem. Na verdade, o lábio superior havia sido cortado pelos dentinhos.

Depois de alguns minutos ele parou de chorar e quis mamar. Mamou normalmente, então deduzimos que estava tudo bem, já que o corte não o atrapalhava naquele momento. Logo ele voltou a dormir. Já eu, não preguei os olhos naquela noite.

Dormimos juntinhos, como é de costume. Eu o observava atentamente, na expectativa de que ele demonstrasse dor ou incômodo, ou mesmo tivesse sonhos ruins por causa da queda. Mas não, não houve nada diferente naquela noite. Ele dormiu tranquilamente.

Enquanto ele dormia, eu fica olhando pra ele, e pensando em tudo, pensando aonde foi que eu tinha errado... E foi aí que cheguei a uma conclusão. Na verdade, foi a primeira lição que aprendi como mãe: "NÓS, PAIS E MÃES, NÃO PODEREMOS PROTEGER NOSSOS FILHOS DE TUDO." Na verdade, acho que não podemos protegê-los de praticamente nada!

Demorei a aceitar isso. Levei a noite toda pensando e repensando no ocorrido e na lição que eu havia tirado... Fazemos o melhor que podemos para nossos filhos, nos doamos a eles, mas não poderemos protegê-los da maioria dos problemas/ perigos/ aborrecimentos da vida.

Acredito que como pais e mães, temos o direito e a obrigação de alimentá-los, vesti-los, instrui-los, ajudá-los a tomar decisões, ensiná-los a assumir responsabilidades e estarmos presentes. Mas mesmo assim, uma hora ou outra, ficarão doentes, ou se machucarão, ou arrumarão briga com colegas, ou se decepcionarão...

E a nós, caberá estar ali, com o vidrinho do remédio que precisam tomar, com os braços abertos... O beijinho que tudo sara preparado, as mãos molhadas, para fazê-los recuperar o fôlego... O ombro amigo, as palavras certas na hora certa, ou apenas com nosso silêncio...

Ou simplesmente estaremos ali para pegá-los no colo, embalarmos de um lado para o outro, e fazendo "shishishi" no ouvido, enquanto se acalmam e dormem.

No dia seguindo ao tombo ele acordou sorridente, apenas com o biquinho inchado!