sexta-feira, 30 de maio de 2014

A TENOTOMIA

A tenotomia seria necessária porque os tendões do Miguel estavam "encurtados". Se não fosse feita, ele provavelmente andaria na ponta dos pés, como quem usa salto alto, como a Barbie! rs

Acho que as Barbies precisam passar por um ortopedista! rs
Estávamos na 6ª sessão de gesso, já com exames pré-operatórios em mãos, apenas aguardando a autorização do plano de saúde para marcarmos a data da cirurgia. 

Você sabia que os planos de saúde têm o direito de dar a autorização apenas 21 dias após o requerimento ter sido feito? Pois é. Esse foi o tempo que esperamos para que fosse autorizada. Ficamos revoltados. A cirurgia seria "simples", rápida... Então, porque não seria autorizada com rapidez? E não foi. Nesse meio tempo precisamos manter os pés de Miguel imobilizados pelo gesso, mesmo estando perfeitos. Não podiam ficar livres para não corrermos o risco de recidiva enquanto esperávamos. Pensamos em pagar a cirurgia. Seria mais rápido do que esperar pelo plano. Nos custaria R$ 2500,00. Não tínhamos o dinheiro, mas daríamos um jeito. Ao mesmo tempo, pensava ser uma afronta ter que pagar por algo que nos seria um direito. Esperamos. 

Enquanto esperávamos Miguel colocou o 7º e o 8º gesso. Na troca do 8º, perguntamos ao Dr. Paulo se ele podia deixar os gessos por 2 semanas, e tirá-los apenas no dia da cirurgia, que estava autorizada. Ele deixou. Então, até a cirurgia foram 8 sessões de gesso.

No dia 18 de novembro, com 2 meses,  Miguel seria operado.

O Grande Dia chegou! Estávamos felizes e apreensivos. Considerávamos essa a segunda etapa do tratamento.
Acordamos cedo. Miguel j´pa estava em jejum desde as 4 horas da manhã. Era necessário fazer 6 horas de jejum, mesmo sendo alimentado apenas com leite materno. Nos acompanhando estava minha mãe, que teve dor de estômago, de tanta ansiedade. Dizem que o amor de avó pelos os netos é mais tenso que o amor pelos filhos! rs

Chegamos à Clínica de Acidentados de Vitória às 7:00h. Ele estava dormindo. Enquanto esperávamos para ser internado, ele acordava e dormia de tempo em tempo. Chorava um pouco, mas dormia novamente. A hora foi passando... Foi necessário retirar os gessos que estavam em suas pernas. No silêncio da clínica vazia, eu podia ouvir seus gritos de longe. Gilberto e minha mãe foram com o bebê para retirar os gessos. enquanto eu resolvia sobre a papelada do plano. Miguel sempre chorava muito, em todas as sessões de retirada e de colocação de gessos. Por algumas vezes ele vomitou, de tanto que chorou. Nesse dia, seu sofrimento estava intensificado pela fome. Já eram quase 9 horas da manhã. Era inevitável que eu ficasse com ele no colo. Não era aconselhado porque ele sentia o cheiro do leite, mas ele só se acalmava em meu colo. 

Assim estavam os pés, logo que os gessos foram retirados, é visível a falta do calcanhar!
Fomos levados ao quarto para nos acomodar. 

No quarto, recebeu o carinho do papai

E o carinho da mamãe também! Esse sorriso nos dava ânimo!


Em pouco tempo fomos chamados para levá-lo ao Centro Cirúrgico. Para a cirurgia tivemos o apoio muito importante de um amigo enfermeiro, Marcelo Hilário, que se ofereceu para participar da cirurgia. Ficamos tranquilos e felizes com sua presença lá!

Minha mãe e minha tia Leila (vovó Leila do Miguel), que foi nos encontrar lá, ficaram no quarto. O momento era muito difícil pra elas também. Eu e Gilberto ficamos na sala de espera. Conversamos e choramos muito.  Essa espera foi o mais difícil das nossas vidas... Nosso bebê, que já havia passado por tanto sofrimento com os gessos, agora estava, com apenas 2 meses de nascido, passando por uma cirurgia... Mas como em todos os momentos, só podíamos confiar no cuidado de Deus com ele...

Enquanto esperávamos, tive que tirar leite e descartar, porque meus seios vazavam tanto, que o leite estava escorrendo por minhas pernas! rs Cadê meu bebezinho, que precisava daquele leitinho? rs

Em meia hora Marcelo veio nos dizer que a cirurgia havia sido um sucesso, que os tendões haviam cedido, e que já estava sendo engessado novamente. Esqueci de mencionar que após a Tenotomia, ele deveria ficar com as pernas e pés engessados nas 3 semanas seguintes.

Em mais alguns minutos uma enfermeira nos trouxe Miguel chorando (o que era um bom sinal). Eu o peguei no colo... Como era bom tê-lo novamente comigo... Logo o Dr. Paulo veio dar algumas orientações, às quais não ouvi, só ouvia Miguel chorar! rs Mas o pai e as avós ouviram. O gesseiro, Roberto, veio nos contar que logo que os gessos foram feitos, Miguel levantou as duas pernas e bateu uma na outra, e disse que ele é muito forte!

E nessa de ouvi-lo e observá-lo chorar foi que notei que junto à Tenotomia, o doutor havia feito uma Frenulotomia, para separar sua língua presa!!! Nessa hora minhas pernas perderam a força! rs Eu não estava preparada para aquilo! rs Por mais que o Dr. tivesse dito em várias consultas que a faria, ele sempre dizia rindo, por isso pensamos que fosse brincadeira! Mas ele, muito atencioso, nos deu essa cortesia, aproveitando que Miguel já estava anestesiado!

Eu estava exausta com a cirurgia! Acho que para mãe de primeira viagem, a emoção é muito grande... E a felicidade de ter dado tudo certo, é bem maior!
Depois que voltamos ao quarto, Miguel dormiu, e quase 1 hora após a cirurgia ele quis mamar.

Mais um dado importante a respeito do nosso querido Dr. Paulo: Uma funcionária da Clínica perguntou se Miguel era o bebê que havia sido operado minutos antes. Quando disse que sim, ela contou que viu antes da cirurgia começar, o Dr. fazendo carinho em seu rosto e dando um beijo... Como é impressionante o carinho dele por seus pacientes... Ele não precisava agir assim porque nós, pais não estávamos ali para ver, mas todo esse amor é dele, independente de qualquer coisa!

Às 14 horas já havíamos recebido alta. Finalmente voltaríamos para casa!


A PRIMEIRA ETAPA, O GESSO

Como eu já citei em outra postagem, dizer que Pé Torto Congênito (PTC) é um problema simples, fácil de resolver, é um engano. PTC, em muitos casos, requerer muito tempo, perseverança e muitas lágrimas em seu tratamento.

Há algumas técnicas para tratar PTC. A que fazemos chama-se Método Ponseti. Ela consiste em ter os pés e pernas engessados, com trocas semanais de gesso, por quanto tempo for necessário, até que os pés fiquem em uma angulação ideal. Seguindo, pode ser necessário fazer uma Tenotomia, para alongamento do tendão, seguida do uso de um aparelho chamado Órtese.

E foi com o início do tratamento que nossa rotina mudou. Idas semanais ao ortopedista, sessões de gesso intermináveis, olhares curiosos; enfrentamento da nova realidade de nosso pequeno bebê.

Com os raio X  e a autorização do plano em mãos, voltamos ao consultório médico, uma semana após a primeira consulta. Miguel estava com 1 mês e 1 semana de nascido. Fomos eu, Miguel, minha mãe, minha irmã Ludmilla e tia Leila. Estávamos confiantes. Ansiosas e confiantes. O pai não foi, foi trabalhar. Não senti necessidade de que ele fosse, afinal de contas, estava confiante. Tudo seria tranquilo.

O Dr. Paulo Roberto Moulin é referência no tratamento de pé torto aqui no estado. Além de muito capacitado, ele é extremamente carinhoso e cuidadoso com crianças. Já com o bebê na maca, o Dr. conversou com ele tão calmamente, explicando o que aconteceria. Fez carinho em seu rosto, deu até um beijinho. Com a ajuda de sua assistente, começou a aplicar o gesso sobre sua perna.

Primeiro uma camada de algodão. E então o gesso.

À medida em que ia ficando firme, ele era moldado para que o pé ficasse na posição desejada. Ele deve ser colocado dos pés à cocha, pouco abaixo da virilha. O pé não foi quebrado para isso, como muitos imaginam. Ele foi forçado a ficar em uma nova posição. Acho que dá pra imaginar o quanto nosso pequeno chorou, não é?

Miguel chorava muito. Eu nunca havia ouvido ele chorar daquela forma... Até então ele não havia sofrido com cólicas, comum em bebezinhos... Seu rosto ficava vermelho. Minha mãe não conseguia sair de perto dele. Ela conversava com ele tentando, em vão, acalmá-lo. Se abaixava, ficava bem pertinho de seu rosto. Ela chorava muito. Eu, ali ao lado, observando tudo também chorava muito. Me sentia impotente. Me sentia culpada. Minha irmã, que tirava fotos e minha tia, na porta, também choravam muito. Eu pensava que era o tipo de mal necessário, aquele que o fizemos passar. Eu pensava o tempo todo "Por quê"? "Por que conosco"? "Por que com meu filho"? "Por quê, por quê, por quê?"

Miguel chorou tanto que na colocação do gesso na segunda perna, ele dormiu. Dormiu de cansaço.

Fomos embora as 4 arrasadas, e meu filho começando a vencer o problema.

Já em casa, meu filho, que não "sabia" chorar até então, havia aprendido. Em casa, a noite não foi fácil. Imagine uma criança que gostava de mexer suas perninhas, e que as tinha em uma posição confortável, com seus pés lindamente tortinhos, agora tê-las presas firmes, imóveis... Não sabíamos como agir. Ele dormia e acordava chorando.

Esse primeiro dia foi muito duro para todos nós.

Ao pai chegar em casa e ver a situação, seu bebê chorando, com as duas pernas engessadas, pude ver em seus olhos um pouco de desespero e impotência também. Sofremos muito. Por isso, pela experiência que tivemos, digo que não há palavras que nos consolem durante o tratamento. Pode ser que outras famílias "tirem de letra" a situação, mas nós não.

A partir daí, o pai se empoderou da situação e decidiu que seria parte ativa em todo tratamento, estando presente em todas as sessões de trocas de gesso. Estávamos passando por uma situação inesperada, de ele ter que trabalhar no Rio de Janeiro (moramos no Espírito Santo), mas mesmo assim ele estava aqui toda segunda, no horário das consultas. Ele segurava o filho no colo, tentava acalmá-lo, fazia-o rir, mesmo quando o bebê queria chorar... E foi em um desses dias que pela primeira vez Miguel dormiu em seu colo. Para ele foi muito especial, ficou muito feliz.

A adaptação de Miguel às pernas engessadas foi inevitável, graças a Deus. Muito novo, passou a aceitar os gessos como parte do corpo.

Quando fomos trocar o primeiro gesso, uma semana após a colocação, não imaginávamos a felicidade que teríamos... Que coisa mais linda já estavam os pés!!! Já bem próximos à posição certa!!!! Ficamos muito felizes!!! O médico nos deixou mais empolgados ainda, pois elogiou muito os pés! Simplesmente lindos!!!

E então, toda semana deveríamos voltar com ele para que a troca de gessos fosse feita. Primeiro na Clínica Clifor, e depois na Clínica de Acidentados de Vitória. E assim fizemos.

No quarto gesso seria decidido se seria necessário fazer a cirurgia, ou não. O Dr. preferiu que fizéssemos mais 2 gessos, porque os pés já estavam na angulação ideal, de 45º, porém, o calcanhar ainda estava alto.

Na troca do 5º gesso ele viu que os tendões encurtados não haviam cedido; iríamos para a cirurgia... Mas esse é um assunto para outra postagem... Rs

Fotos do primeiro gesso

Após os gessos serem retirados, aguardando a colocação
O aleitamento materno nos ajudou muito nessa fase, fazendo com que Miguel ficasse mais tranquilo e seguro, alimentado com leite e amor!