sexta-feira, 30 de maio de 2014

A PRIMEIRA ETAPA, O GESSO

Como eu já citei em outra postagem, dizer que Pé Torto Congênito (PTC) é um problema simples, fácil de resolver, é um engano. PTC, em muitos casos, requerer muito tempo, perseverança e muitas lágrimas em seu tratamento.

Há algumas técnicas para tratar PTC. A que fazemos chama-se Método Ponseti. Ela consiste em ter os pés e pernas engessados, com trocas semanais de gesso, por quanto tempo for necessário, até que os pés fiquem em uma angulação ideal. Seguindo, pode ser necessário fazer uma Tenotomia, para alongamento do tendão, seguida do uso de um aparelho chamado Órtese.

E foi com o início do tratamento que nossa rotina mudou. Idas semanais ao ortopedista, sessões de gesso intermináveis, olhares curiosos; enfrentamento da nova realidade de nosso pequeno bebê.

Com os raio X  e a autorização do plano em mãos, voltamos ao consultório médico, uma semana após a primeira consulta. Miguel estava com 1 mês e 1 semana de nascido. Fomos eu, Miguel, minha mãe, minha irmã Ludmilla e tia Leila. Estávamos confiantes. Ansiosas e confiantes. O pai não foi, foi trabalhar. Não senti necessidade de que ele fosse, afinal de contas, estava confiante. Tudo seria tranquilo.

O Dr. Paulo Roberto Moulin é referência no tratamento de pé torto aqui no estado. Além de muito capacitado, ele é extremamente carinhoso e cuidadoso com crianças. Já com o bebê na maca, o Dr. conversou com ele tão calmamente, explicando o que aconteceria. Fez carinho em seu rosto, deu até um beijinho. Com a ajuda de sua assistente, começou a aplicar o gesso sobre sua perna.

Primeiro uma camada de algodão. E então o gesso.

À medida em que ia ficando firme, ele era moldado para que o pé ficasse na posição desejada. Ele deve ser colocado dos pés à cocha, pouco abaixo da virilha. O pé não foi quebrado para isso, como muitos imaginam. Ele foi forçado a ficar em uma nova posição. Acho que dá pra imaginar o quanto nosso pequeno chorou, não é?

Miguel chorava muito. Eu nunca havia ouvido ele chorar daquela forma... Até então ele não havia sofrido com cólicas, comum em bebezinhos... Seu rosto ficava vermelho. Minha mãe não conseguia sair de perto dele. Ela conversava com ele tentando, em vão, acalmá-lo. Se abaixava, ficava bem pertinho de seu rosto. Ela chorava muito. Eu, ali ao lado, observando tudo também chorava muito. Me sentia impotente. Me sentia culpada. Minha irmã, que tirava fotos e minha tia, na porta, também choravam muito. Eu pensava que era o tipo de mal necessário, aquele que o fizemos passar. Eu pensava o tempo todo "Por quê"? "Por que conosco"? "Por que com meu filho"? "Por quê, por quê, por quê?"

Miguel chorou tanto que na colocação do gesso na segunda perna, ele dormiu. Dormiu de cansaço.

Fomos embora as 4 arrasadas, e meu filho começando a vencer o problema.

Já em casa, meu filho, que não "sabia" chorar até então, havia aprendido. Em casa, a noite não foi fácil. Imagine uma criança que gostava de mexer suas perninhas, e que as tinha em uma posição confortável, com seus pés lindamente tortinhos, agora tê-las presas firmes, imóveis... Não sabíamos como agir. Ele dormia e acordava chorando.

Esse primeiro dia foi muito duro para todos nós.

Ao pai chegar em casa e ver a situação, seu bebê chorando, com as duas pernas engessadas, pude ver em seus olhos um pouco de desespero e impotência também. Sofremos muito. Por isso, pela experiência que tivemos, digo que não há palavras que nos consolem durante o tratamento. Pode ser que outras famílias "tirem de letra" a situação, mas nós não.

A partir daí, o pai se empoderou da situação e decidiu que seria parte ativa em todo tratamento, estando presente em todas as sessões de trocas de gesso. Estávamos passando por uma situação inesperada, de ele ter que trabalhar no Rio de Janeiro (moramos no Espírito Santo), mas mesmo assim ele estava aqui toda segunda, no horário das consultas. Ele segurava o filho no colo, tentava acalmá-lo, fazia-o rir, mesmo quando o bebê queria chorar... E foi em um desses dias que pela primeira vez Miguel dormiu em seu colo. Para ele foi muito especial, ficou muito feliz.

A adaptação de Miguel às pernas engessadas foi inevitável, graças a Deus. Muito novo, passou a aceitar os gessos como parte do corpo.

Quando fomos trocar o primeiro gesso, uma semana após a colocação, não imaginávamos a felicidade que teríamos... Que coisa mais linda já estavam os pés!!! Já bem próximos à posição certa!!!! Ficamos muito felizes!!! O médico nos deixou mais empolgados ainda, pois elogiou muito os pés! Simplesmente lindos!!!

E então, toda semana deveríamos voltar com ele para que a troca de gessos fosse feita. Primeiro na Clínica Clifor, e depois na Clínica de Acidentados de Vitória. E assim fizemos.

No quarto gesso seria decidido se seria necessário fazer a cirurgia, ou não. O Dr. preferiu que fizéssemos mais 2 gessos, porque os pés já estavam na angulação ideal, de 45º, porém, o calcanhar ainda estava alto.

Na troca do 5º gesso ele viu que os tendões encurtados não haviam cedido; iríamos para a cirurgia... Mas esse é um assunto para outra postagem... Rs

Fotos do primeiro gesso

Após os gessos serem retirados, aguardando a colocação
O aleitamento materno nos ajudou muito nessa fase, fazendo com que Miguel ficasse mais tranquilo e seguro, alimentado com leite e amor!


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