Era uma vez um par de pés tortos...
Após as 3 semanas consecutivas usando os gessos pós cirúrgicos, chega o Grande Dia de avançarmos no tratamento. Deixaríamos para trás a sala empoeirada da clínica, também não teríamos mais a poeirinha branca que tomou conta da nossa cama por quase 4 meses... Quase 4 meses? Sim! Foram 11 semanas do nosso Miguel com as pernas engessadas. Nesse tempo tivemos que encarar momentos difíceis, e não estávamos preparados... Gesso, choro de bebê, olhares que incomodavam, comentários infelizes... Enfim, tudo ficaria para trás!
Era segunda-feira, e teríamos que ir mais uma vez à Clínica de Acidentados de Vitória (de, não dos! rs). Como Gilberto ainda estava a caminho, vindo de viagem, conseguimos carona com um amigo, Lulu. Ele nos levou à Clínica. Eu, Miguel e Ludmilla, com uma sacolinha de papel na mão, e dentro dela, a bendita órtese, que carinhosamente chamamos de botinha - um par de sapatinhos pretos, de couro, com uma barra de metal que os mantém fixados e imóveis, presente do vovô Mauro e da vovó Rosi.
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| Em casa, conversando sobre a botinha! rs |
Enquanto aguardávamos nossa vez para a retirada do último gesso, o pai chegou com vovó Ione.
Finalmente fomos chamados! Foi emocionante segurar meu filho no colo enquanto o gesso era retirado com a máquina, porque por quase 4 meses eu o segurava, e enquanto a máquina fazia um barulhão, e o assustava, o pai e eu precisávamos olhar em seus olhos e passar confiança, para que ele se acalmasse, dizendo que estava tudo bem. Agora sim, realmente estava tudo bem, porque não precisaria mais colocar gesso... Agora sim estaria tudo bem porque seus pés estavam na posição ideal. Graças a Deus!
Agora as perninhas estavam livres em definitivo! Como diz meu marido, minha família "chora pouco, né?!" rs então, dá pra imaginar quantas lágrimas de alegria derramamos até ali! rs
Como em outras vezes, levei lenço umedecido para limpar suas pernas e pés, que ficavam sujas pela poeira, e pelo chulezinho azedo que se formava com a falta de ventilação e higienização nos dedinhos... Pernas e pés livres, agora limpinhos...
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| Por tanto tempo de gesso, as perninhas passaram a ter o formato em que o gesso era moldado |
E então, deveríamos aguardar o Dr. Paulo nos chamar, e enquanto esperávamos, apreensivos, aliviados, tensos, felizes, tivemos mais uma bela surpresa... Mais alguns membros da família chegaram para nos dar apoio. Eram meus tios Matheus, Débora e o filho Guilherme. Imagina a farra... Estávamos em 7 pessoas, comemorando ali na clínica mesmo mais uma vitória! Fico pensando se os funcionários não notaram que havia gente demais naquele espaço tão apertado! rs
Enquanto aguardávamos, Guilherme, com aproximadamente 3 anos de idade, olhou para as pernas de Miguel e perguntou o que era aquilo! rs O que eram aquelas pernas... rs Acho que ele estava é curioso em saber como Miguel ganhou pernas, se ele só tinha perninhas duras e brancas... rs
Bom, chegou nossa vez! O Dr., muito feliz em nos ver, observou e manuseou os pés do nosso pequeno. Ele disse que estavam perfeitos, flexíveis, com o calcanhar no lugar certo, e que a cicatrização estava ótima! Retirou os pontos e nos ensinou como colocar a órtese. Miguel chorou um bocado quando ele a colocava. Suas pernas e pés estavam com a aparência ainda roxeada, por conta da circulação sanguínea, e a pele era fina e sensível.
Ele nos passou algumas instruções. Fiquei atenta a todas elas, afinal de contas, eu, como principal cuidadora do meu filho, precisaria segui-las à risca.
As mais importantes foram que a órtese deveria ser usada por 23 horas e meia, sendo retirada apenas para dar banho. Disse também que não deveríamos reira-la quando ele chorasse, porque ele entenderia que chorando ficaria livre delas, e essa relação não poderia acontecer! Ele precisava se habituar. E finalmente, que o sucesso do tratamento agora dependeria de nós, pais, que precisaríamos segui-lo rotineiramente, sem falhar. Sua parte, como médico, acabava por ali.
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| Primeiros momentos com a órtese |
Saímos dali muito felizes! Miguel agora poderia usar roupas de forma mais confortável, não precisaria mais dormir incomodado com os gessos que demoravam a secar, se o tempo não estivesse quente. Agora ele poderia tomar um "banho de verdade", molhando o corpo todo... Era uma nova vida para nós, uma nova etapa...
Saindo dali, fomos comemorar! Passamos na casa de alguns familiares, para que vissem, enfim, as pernas do Miguel... Todos torciam por ele!
Que dia feliz foi esse... Uma tarde abençoada, com nossa família amorosa... Somos gratos a Deus por toda força que nos deu até ali!
Chegando em casa, o primeiro banho! Estávamos empolgadíssimos! Mas não foi bem como esperávamos... Por incrível que possa parecer, Miguel estava habituado com os gessos. Eles eram parte do seu corpo, então, agora sem o peso e a proteção deles, ele demonstrava medo. Estava inseguro. Não gostou de sentir a água molhar suas pernas, chorou muito. Também não gostou de sentir suas pernas tão leves e livres, já que as levantava, e quando elas abaixavam, ele chorava. Passamos por momentos difíceis durante a adaptação dele com os gessos, e passaríamos por mais alguns dias difíceis, até que aceitasse sua nova condição...
Durante a primeira semana de adaptação, o pai precisou voltar ao Rio, e Ludmilla ficou comigo. Graças a Deus ela estava desempregada, e portanto, disponível! rs Graças a Deus que ela teve forças para resistir à pressão! rs
Enquanto para o gesso foi necessário 2 dias para que ele se adaptasse, para a órtese foram necessários 5. Foram 5 dias de choro - dele e nosso. Quando dormia, não era um sono tranquilo, acordava várias vezes, chorando. Uma vez passei a noite com ele dormindo sobre minha barriga, porque ele só relaxava assim. E como sei que não há remédio melhor do que colo de mãe, ficava o máximo que aguentava com ele no colo. Quando eu já estava cansada demais, Ludmilla o pegava. Ela precisou conquista-lo para que ele ficasse tão bem como ela quanto ficava comigo.
Certa vez consegui fazê-lo dormir no colo, e como toda vez que o colocava na cama ele acordava, decidi mantê-lo no colo. Assim ele dormiu das 18h às 21h. Eu, já exausta, decidi me deitar com ele ao lado. Assim dormimos até a meia noite. Quando acordou, ele estava feliz, bem disposto, risonho... estava precisando desse sonhinho para recarregar as baterias! Ficou acordado até aproximadamente as 3h da manhã, que foi o horário em que demos um banho e ele voltou a dormir. Essa madrugada foi de quinta para sexta-feira. A partir desse dia, ele reagiu super bem à órtese.
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| Após uma noite mal dormida, na primeira semana da órtese! |
Era uma vez um menino que tinha pés tortos, e agora não tem mais! rs
Puxa! Vivemos tantas aventuras de fevereiro a dezembro de 2013... Uma gravidez descoberta de uma forma incrível, um bebê com pés tortos -nem sabíamos que isso existia- um nascimento festejado por todos, o início e o avanço no tratamento, uma cirurgia...
2013 foi nosso ano... Ano de sermos felizes... Ano de milagres incontáveis... De conquistas... De transformações... E a melhor de todas foi a de nos transformamos, de Michelle e Gilberto, em Mãe e Pai de Miguel!
Algumas notas importantes:
- Com o passar do tempo, o tratamento com o uso da órtese muda, a quantidade de horas para usa-la durante o dia diminuem. Agora, com 8 meses de tratamento, sendo 5 deles com o uso da órtese, estamos na fase de 16 horas. E em Julho iremos para 12 horas, isto é, ele a usará apenas à noite, para dormir.
- A hora do banho agora, é hora de festa! E Miguel já está engatinhando -como a órtese e sem ela- se levantando, segurando nas coisas, ficando em pé, ensaiando passos quando ajudado... Seu desenvolvimento motor não está em nada atrasado!
- A órtese deverá ser usada até que Miguel tenha 4 anos de idade.
- Minha irmã já está empregada! rsrs
Às famílias que estão inseguras com tantas situações difíceis com o início do tratamento de suas crianças, fica nossa história, para que percebam que é difícil sim, mas logo passa. É suportável, é superável. E o melhor, é que a correção dos pés é possível!
Tudo o que passamos até aqui nos uniu como família, nos aproximou aos amigos, nos conectou a tantas outras famílias que passam pelo mesmo que nós! Tenham fé, que vai dar certo!
À nossa família e amigos, muito obrigada por todo apoio! Não tenho palavras para descrever o quanto somos gratos! Nos ajudaram sendo companhia para as tardes de segunda-feira, e para tantos outros dias, colocaram o carro a disposição, nos apoiaram financeiramente, rogaram a Deus por nós... Muito obrigada!
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| Em poucos dias ele descobriu a delícia que é um banho bem tomado! rs |
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| Descobrindo seu novo acessório... |
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| Nosso filho, nosso maior tesouro! |
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| O primeiro banho de chuveiro, uma semana após parar de usar gesso |
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| Na consulta de revisão da órtese, duas semanas depois de começar a usa-la No colo do Dr. Paulo |
Muito obrigada a Gisele Dantas, que me mostrou o caminho do tratamento, quando estávamos completamente perdidos! Serei eternamente grata a você e seu desejo altruísta em nos ajudar!
Não acabamos por aqui não! O tratamento continua e nossa história está apenas começando...
Não acabamos por aqui não! O tratamento continua e nossa história está apenas começando...














Difícil não me emocionar. Revivo todos os momentos com nosso pequeno e vejo a grandeza de nosso Deus em nos dar força e coragem pra continuar o tratamento. Só Ele pra nos aliviar o fardo e nos recarregar as baterias. Obrigada, Meu Deus, porque o Senhor é o autor e mantenedor de nossas vidas.
ResponderExcluirA vida que Deus nos proporciona é realmente emocionante, mãe! Os pés do Miguel são um detalhe muito especial...
ExcluirE tê-la ao meu lado sempre me manteve bem mentalmente! Te amo! Obrigada por todo apoio!
Michelle você escreve lindamente. Seu blog está lindo. Chorei em quase todas postagens.rsrs Não sei se teria sua força. Você é uma guerreira!
ResponderExcluirKrlsS, obrigada pelo carinho!
ExcluirPosso afirmar, sem erro que a força que tive e preciso ter até hoje vem de Deus! Somente com Ele à frente tudo passou e hoje pode ser lembrado com felicidade!!!!!
Sempre encontramos tantas historias bonitas e incriveis pela internet... de superaçao... de vitórias. Lendo a historia de Miguel, tambem vejo uma historia tao incrivel e agradeço a Deus por ter estado sempre ao lado quando precisou de mim. Ainda bem que eu esta a desempregada. Rs Deus faz tudo bem certinho. Kkkkkk Voce é incrivel minha irma. Voce e Miguel e Gilberto aprenderao muitas coisas juntos. Amo voces.
ResponderExcluirLudy, me lembro que antes mesmo de engravidar, você me disse que sairia do emprego para cuidar de meu filho, quando o tivesse, para compensar tudo o que passei com você, como a vez em que precisei lavar o banheiro que estava cheio de seu vômito! kkkk Bom, ainda bem que não precisou largar emprego para me ajudar!!!!!!!! kkkkkkkk
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